Há uns anos antrás, tive uma amiga. Uma grande amiga. Sabe aquelas amigas com as quais se pode contar sempre? Aquelas que nos entendem só no olhar e com as quais podemos falar de qualquer coisa? Pois a Lucía era assim... Uma portubrasinhola perfeita! Portuguesa na alma, brasileira por curiosidade e espanhola de nascença. Uma mistura fascinante e nada além de perfeita!
Nos conhecemos em plena aula de ética no meu primeiro dia de aula em Coimbra. Eu e minhas amigas chegamos atrasadas e ao perceber que éramos estrangeiras, ela se aproximou. Conversamos um pouco e jurávamos que ela era portuguesa (o sotaque era perfeito!) mas ao fim das aulas descobrimos que estávamos diante de uma espanhola das Astúrias - uma princesinha de Astúrias.
No começo, era apenas uma companhia estrangeira com quem eu falava das aulas, das dificuldades com a língua e passava o tempo quando tinha muita saudade de casa. Mas as conversas foram evoluindo, nos encontramos em salas de outras disciplinas e a amizade foi inevitável. Em pouco tempo tempo eu tinha uma amiga de verdade. Estudávamos juntas, almoçávamos, conversávamos muito e reclamávamos. Como éramos reclamonas... Mas tudo passa!
Lembro-me de uma noite de inverno (muito, muito fria) em que fomos juntas a um recital de piano na Biblioteca Geral. Aqueles livros antigos, todo aquele ouro, uma história fortíssima e tão presente naquela universidade... Acho que aquilo tudo nos transportou para outra época, outra dimensão. Um piano tocava longe, uma cantora lírica tocava as nossas almas e nós pensávamos numa época em que tudo era mais suave, mais romântico. Pensamos em nossas vidas, nos fracassos amorosos, em tudo o que estávamos vivendo naquele momento e saímos daquele lugar maravilhoso pisando em nuvens. Fomos a um coquetel na reitoria e o que vimos foi uma noite linda numa cidade de sonhos. Coimbra era isso: a cidade dos sonhos. Uma noite inesquecível onde choramos, sorrimos, exaltamos a vida!
Lucía era uma amiga de loucuras confessas... Uma amiga com a qual eu poderia sempre contar e para quem eu podia dizer qualquer coisa que, por mais que ela se assustasse, nunca me julgaria. Às vezes, nos tranpostávamos para outras épocas. Quando ela estudava português, lia muito Eça de Queiroz. Eu, sempre gostei muito desse autor. Imagina quando descobri que ela morava em Celas? Imediatamente, pensei em Os Maias. Ainda não conhecia Celas e queria tanto ir até lá. Agora tinha um ótimo motivo... Quantas vezes, em nossas loucuras dissemos que estaríamos a caminho de "Os Paços de Celas" onde veríamos cenas como as descritas em Os Maias? Andar por Celas à noite era sempre uma aventura...
Numa noite qualquer de muito frio também (como me lembro do frio...) fomos jantar num restaurante chinês. Comemos crepes e legumes, bebemos cola e minha amiga ficou alterada devido à cafeína... Foi uma noite de muitas brincadeiras, conversas sem nexo algum, muitas risadas e diversão total. Uma noite despretensiosa e mais uma das tantas que passamos juntas e foram inesquecíveis.
Da primeira vez em que eu e a Renata fomos à casa da portubrasinhola, nunca vou me esquecer... Saímos do nosso apartamento com garrafas de vinho na mão e estávamos à espera do autocarro quando um velho nos abordou e disse que àquela hora não haveria mais nenhum autocarro para celas e que se quiséssemos ele nos dava uma boleia. Ficamos com muito medo de sair com ele, mas acabamos indo. Estávamos as duas de saia curta, desde o primeiro momento ele havia percebido que éramos brasileiras e ainda tínhamos garrafas de vinho nas mãos. Era arriscadíssimo, mas nossa amiga amiga nos esperava, éramos duas e ele apenas um velho. Talvez ele até tenha dito alguma coisa, mas não me lembro bem, só lembro de que ele olhava muito para nossas pernas e nós púxamos a saia para baixo a todo instante. Quando avistamos a Cruz de Celas, pedimos que ele parasse o carro e descemos mais do que depressa...
Quando chegamos à casa da Lucía com todo aquele vinho e mais um pouco de leite condensado ("vinho com leite moça é pau na coxa..."), ela até se assustou... Mas acabamos logo com aquilo, deixamos de encontrar com o resto da turma e ficamos a ver novela. Quando acabou a novela e nossa mistura bombástica, não nos restava nada a não ser descer para a Praça da República e beber um pouco mais... Acabamos num café com o Waguinho e o Davi a tomar muitas caipirinhas!!! Mais uma noite louca em Coimbra.
No final do primeiro semestre, estudávamos durante muito tempo para os exames. Isso, nos levava a comer muito! Passávamos na pastelaria, comprávamos um caixa de doces e seguíamos para a casa de Lucía. Conversávamos durante horas sobre nossos desamores, saudade de casa, festas estudantis e quando víamos que o tempo havia voado, começávamos a estudar Direito. Após várias tardes assim, não conseguimos nota suficiente no primeiro exame. Partimos as duas para o exame oral um dia após a divulgação dos resultados. Mais uma passada na pastelaria, mas dessa vez já agarramos direto a Constituição Portuguesa e só largamos quando estávamos acabadas!
Eu fui a primeira a fazer o exame oral. Saí da sala me sentindo uma burra e logo convidei minha amiga para um café. Após uma meia de leite quentinha e um pastel de nata, estávamos prontas para outra! Ela só faria o exame à tarde e por isso estudei com ela mais um pouco e fomos almoçar. Na hora do exame, fiquei na porta orando sem parar e de repente, sai ela de lá também dizendo que não havia ido muito bem. Nos sentíamos duas derrotadas, mas nem por isso deixámos de dizer uma à outra que passaríamos naquele exame... E não é que passamos? Eu não tive coragem de olhar os resultados, mas Lucía olhou e me telefonou com a boa notícia. Tivemos que comer mais doces para comemorar!
Lembro-me de um começo de ano muito frio em que éramos apenas nós em Coimbra... Ela havia voltado do Porto e eu da Serra da Estrela. Não tínhamos nada de dinheiro, mas eu precisava realizar um sonho - ir ao Rally Dakar. Mal tínhamos o dinheiro das passagens e eu estava muito desanimada. Pensava no quanto teria que me sacrificar para ir ao Rally, teria que ir sozinha e passaria o restante das férias sem dinheiro. Chamei minha grande amiga para jantar em minha casa e expliquei o que estava acontecendo. Ela disse que iríamos a Lisboa sim e que seria muito divertido! Eu ainda estava desanimada, mas disse que conversaríamos.
Tomamos muita sangria, rimos, planejamos e fomos dormir. Perdemos hora. Eu disse para continuarmos dormindo, mas ela insistiu e acabamos saindo de casa... Eu não acreditava que estávamos fazendo aquilo! Chegamos a Lisboa na hora da largada. Até conseguirmos informações e chegarmos ao local, era o fim da largada! Caraca, como fizemos essa loucura? Enfim, já que estávamos lá... Nos divertimos feito crianças. Tiramos milhões de fotos, vimos coisas interessantíssimas, passeamos pelo parque. Fizemos um lanche rápido, comemos Pastéis de Belém e seguimos para uma exposição que minha amiga queria ver. Falidas como estávamos ainda conseguimos fazer compras no Metro (sempre que uso minha bolsa, lembro-me daquele dia)! Lucía me levou a uma exposição de um pintor maravilhoso!!! Só me lembro que seu nome era Amadeo... Foi uma tarde mágica. Fizemos coisas que não havíamos planejado, conversamos coisas loucas (só para variar), fizemos compras e voltamos a Coimbra com aquele ar bobo de pessoas felizes...
Por um tempo, andei ocupadíssima juntando dinheiro para minha viagem e não dei tanta atenção para minha filhinha, minha florzinha, minha linda... Foi o meu período mais triste em Coimbra! Eu só estudava e trabalhava (mais trabalhava do que estudava) e não tinha pique para mais nada. Estudava de 8h às 13h e trabalhava das 13:30 às 23h, sábados, domingos e feriados... Não tinha tempo nem de me olhar no espelho! Engordei, deprimi, me afastei e sofri. Um tempo que eu não gosto de lembrar, mas que me permitiu realizar outro sonho: viajar pela Europa. Sei que os amigos entenderam e aceitaram e isso me deixa tranquila, mas queria muito ter vivido um pouquinho mais com minha amiga...
O tempo passou, a distância é enorme, a saudade esmagadora, mas as lembranças são as melhores... Não sei se um dia voltarei a ver Lucía, sei que aquela foi uma amiga de verdade, uma amiga muito importante e na época mais importante e feliz da minha vida. Uma época em que eu podia ser quem eu quisesse, do jeito que bem entendesse e não precisava me preocupar. Sempre lembrarei dessa época e principalmente de Lucía... Para sempre, minha filha!!!