segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

O olhar...

Ele me olhava com afeto... Eu fingia que não percebia, mas aquele olhar insistente me deixava sem graça. Era um olhar forte, amoroso, desafiador e doce, muito doce. Sentir aquele olhar me fazia feliz. Saber que era capaz de despertar tudo aquilo em alguém, em um homem de verdade, fazia com que eu me sentisse especial.

Eu era apenas uma adolescente. Egoísta. Queria viver tudo ser tudo. Não estava pronta para embarcar num sentimento daqueles. Ignorei. Fingi que não percebia aquele olhar e me afastei. Em minha cabeça, tudo dizia que era possível brincar um pouco, me divertir. Topei o desafio. Mas era ilusão. Não dava para brincar assim, não dessa vez.

Ele entrou no jogo e isso fez o interesse aumentar. Eu comecei a me divertir e a gostar de tudo aquilo. Olhares, palavras não ditas, sorrisos... Nada de tão importante aconteceu, apenas o pior. Ele percebeu que eu só queria brincar, mas àquela altura, já estava apaixonada! Já não era possível voltar atrás, parar tudo e me mostrar de verdade, sem joguinhos infantis. Era tarde demais. Eu estava apaixonada e ele pensou que eu só queria me divertir e se afastou.

Uma vez apaixonada, não tinha mais jeito. Ele não quis nem ser meu amigo. Permaneci solteira. Solteira na alma. Toquei a vida, quis fingir que não era nada e resolvi continuar. De repente, vi que não dava mais para conviver com aquilo. Vê-lo sempre e não poder chegar perto, olhar para ele e não receber de volta aquele olhar que tanto me fazia feliz. Mudei de cidade, de vida, de país. Nada adiantou. O sentimento só fez crescer. A distância só fez com que ele parecesse a cada dia mais perfeito, mas o tempo passou.

Hoje, ele é um homem beirando os 40 e eu, uma jovem de vinte e poucos anos. Estou de volta, às vezes nos vemos e ele vai se casar. Não, não é comigo. Será com uma boa mulher, uma mulher de verdade. Ele se aproximou de uma velha amiga e agora formarão uma família. Tentei tantas vezes despertar aquele olhar, busquei tanto, sonhei com isso, mas o tempo passou e tudo aquilo ficou lá, no passado.

O amo tanto... Tudo o que eu mais queria era sentir aquele olhar sobre mim mais uma vez. Mas o tempo passou, aquele sentimento ficou para trás e eu fiquei vivendo de passado. De um passado muito lindo e que me trouxe coisas boas. De um passado que me fez querer amadurecer, que me fez ser o que sou hoje.

Não posso mentir e dizer que só vivi para esse amor. Não posso dizer que não vivi que sofri e sofri. Vivi bem. Fiz tudo o que quis e até o que não quis. Cometi loucuras, conheci homens bons, me apaixonei perdidamente, viajei por lugares fantásticos, errei muito e aprendi com tudo de bom e ruim que vivi. Conheci pessoas importantes e algumas que passaram e não farão falta, tive uma vida boa, cheia de riscos e aventuras. Diria que não tenho do que reclamar, mas seria mentira. Se não tenho mais aquele olhar que despertava tantos sentimentos confusos ao mesmo tempo em que me dava paz, tenho do que reclamar! Quero sentir aquele olhar, preciso daquelas sensações, mas tudo se perdeu.

A vida é assim... É preciso fazer escolhas, errar e acertar. Eu escolhi a inquietação, escolhi uma vida que eu não sabia o que era, uma vida que eu não conhecia e tinha sede de viver. Acabei escolhendo um amor platônico, a solidão. Ele escolheu um amor real e o buscou em quem lhe deu uma oportunidade. Agora, ele terá uma família. Que eles sejam felizes! Eu lembrarei sempre daquele olhar e sinto-me feliz por um dia ter visto que ele era só para mim. Um olhar tão doce...